Fogueiras da Tintura

O espelho quase já não refletia a sua imagem, estava todo acinzentado com as marcas do passado, tinha uma leve rachadura que partia seu rosto em dois pedaços.  Mesmo assim, naquele espelho quase inútil, conseguiu ver quem era.

“Quem sou eu?”

Via em seu próprio rosto uma gota de sua mãe, seu pai, seus avós e bisavós de todos os lados. Pensou que talvez fosse uma tinta nova de toda aquela mistura, um marrom acinzentado de todas aquelas cores de seus antepassados. Mesmo assim, por muito tempo, se enxergava como uma gota branca e translúcida.

Em todos os lados, aquelas gotas do passado eram desprezadas. Gotas da mais bela aquarela tratadas como sujeira de esgoto, lodo, mofo. Como ela poderia um dia ser forte o bastante para mostrar a beleza do que era? E quem ela era?

Por mais que aquilo fosse somente sobre ela: os xingamentos, os segredos, os risos de deboche, era como se fosse a reflexão do que toda aquela pintura genealógica passou. Aquilo não podia ser somente sobre ela, as palavras não podiam ofender somente ao seu próprio orgulho e a humilhação certamente não era a primeira na vida de todos eles.

Como expulsar a verdade de dentro de si? Sim, suas origens eram os ratos do esgoto que todos queriam matar e perseguir, eram rasgados e estudados pela ciência dos que dominam, eram ossinhos quebrados pelo prazer de estralar, eram vítimas da podridão humana, da história, eram vítimas de tudo isso, mas não de si mesmos.

Ela era o sangue que borbulhou nas fogueiras, a carne perfurada por chumbo, os deltas das chibatas, a garganta procurando ar, a vermelhidão descendo o ralo. Mesmo não tendo vivido isso, aquilo já era parte dela e de sua história. O que no passado fora o arder das chamas, agora era a queimação dos olhares e das vozes.

Só que, sentada diante daquele espelho, tudo parecia transparecer. O seu rosto, enrugado da dor, era o vinil dos tempos e das sensações, o braile da verdade dos esquecidos. Por mais que o mundo lhe dissesse que ela, eles, eles todos eram errados, não conseguia traduzir as palavras, não conseguia aceitar o que sempre era dito em cochichos. Não iria se curvar às vozes, dessa vez os deltas das chibatas não arrancariam o que desejavam.

Quantos tiveram que morrer, e quantos sobreviveram, para que hoje ela pudesse entrar naquela sala sombria? Se ela era algo, ela era uma lutadora, uma sobrevivente das relíquias do passado, da opressão, da morte, da intolerância. Os seus dedos, seus olhos, sua boca, suas orelhas e nariz, eram todos uma síntese da dor que a condenaria até hoje e seria aquilo que acordaria a sua mente da aceitação e do silêncio.

E, enfim, sabia o que era, e o peso daquilo tudo. Todos aqueles empecilhos do mundo teriam o seu destino nas mãos daquela garota e de muitas outras. A sua luta seria ouvida e bradada ou não seria.

Retirante do Mundo

Pegou sua mala pesada com todos os seus pertences, a cama rangeu ao retirá-la e a marca continuou por alguns segundos. Passou a mão pelo papel de parede sujo e rasgado, sentiu as marcas da umidade em seus dedos, depois olhou para o chão (quase vazio, um milagre), talvez nunca tivesse reparado naquelas tábuas que sustentaram seus pés por tantos anos. Abriu o armário roído pelas traças e encontrou algumas naftalinas presas nas bordinhas, não iam durar muito.
Dessa vez era adeus, infelizmente. Adeus a tudo aquilo que colheu em seus anos vivendo naquele chalé. Era duro e difícil, mas era sua casa, seu ser. Foi ali que chorou, se decepcionou, passou madrugadas sem dormir e dias inteiros relaxando, os poucos dias de folga de uma vida tão curta. Foi ali mesmo que leu a carta de seu pai partindo e a solidão afundando a moradia.
Precisava viver, afinal. “Ser alguém na vida”, diziam. O ônibus chegou duas horas atrasado e só restava um lugar ao lado do banheiro quebrado e fedendo a humanidade. Seria uma semana de viagem e algumas frutas para silenciar a barriga. Um sacrifício necessário, provavelmente.

Abriu a porta do apartamento e sentiu dor em seus olhos: parede branca, chão branco, sofá branco… era ofuscante. Aquilo não era um lar e nunca seria. Você chega e a casa te expulsa, que bom começo! Reclamar não adiantaria, mas a saudade de casa e o vazio dentro de si convidavam algumas lágrimas, então deitou no colchão e jurou que iria desfazer a mala depois.

Acordou no dia seguinte, não sabia se era hora de trabalhar, de marmita ou de jantar. Tirou a remela dos olhos e sentiu o corpo inteiro ceder pelo relaxamento daquela noite (ou tarde?) de paz. Percebeu que seu rosto estava com caminhos de gotas de choro, deu um sorriso e olhou para aquele lar alvo. Seus braços estavam marcados pela costura do colchão, sua cabeça ainda dava alguns giros pela luz do Sol entrando pela brecha da cortina branca, mas parecia que o medo de outrora estava cansado demais para se queixar. Brotou aquela dorzinha no coração que faz a gente ambicionar algo, ainda que o presente seja um soco no peito. Dá pra tentar e ver no que dá.
E recomeçou.

Nós, Motivos Descompassados, Sós

Na plataforma dessa estação

Tudo passa, menos tu

A fumaça me alcança,

Sigo o compasso,

Só que,

Bem

Rápido,

Vem-me à mente

Meu combustível,

Minha pitada de carvão,

Me consome

Me acende

E as chamas cegam-me os olhos,

Abrindo-me a razão

Vá!

Não!

Deixe-me!

O motivo,

Assim, abruptamente

Passa pelo meu peito

Nunca pensei que alguém

Descrente como eu

Fosse acreditar tanto no plural

E, meio que numa irônica sincronia,

Descompasso-me,

Pois, assim, só de repente,

Tal impulso flamejante

Me recua um passo,

Já que, só basta

Um

motivo

E, por fim,

Faço-me,

Por

Um.

A Carta Certa

Ela andava com pressa pelo corredor, apenas tentando disfarçar a sua ansiedade. Olhou para todos os lados só para se certificar de que não havia ninguém por perto, e por fim abriu a carta.

Queria ela que a carta fosse como uma daquelas dos filmes de agentes da CIA que simplesmente se autodestroem, porque talvez assim fizesse menos efeito em sua memória. Talvez ela lesse aquilo sem atenção e quando fosse tentar compreender, virasse chamas. Infelizmente não é assim que o mundo orbita, então o que se autodestruiu foi ela.

Não foi algo rápido, mas não posso indagar que foi um processo lento. Não levou semanas, talvez horas, mas para alguém como ela, isso era muito. Diziam os médicos que até remédios faziam efeito precocemente nela. Talvez com as doenças isso aconteça de forma igual.

O que aquele papel amassado dizia não vai fazer muita diferença para a narrativa, leitor. Um pedaço de celulose não destrói pessoas, nem seu conteúdo, apenas os antecedentes a ele.

Quando ela sorri, seus olhos fazem ruguinhas e ficam quase que por completo fechados, enquanto sua boca atinge o máximo da elasticidade. Essa ela não é a Ela do começo desse texto, porém não pretendo nomeá-la. A sua importância é superior a cartas e palavras, até mesmo descrições. Descrever seu sorriso ou até mostrar-lhe uma foto realmente não pode expressar tudo aquilo que de fato é. Você nunca irá conhecê-la. Nem eu. Nem ela.

Essas duas meninas não se conheceram, mas bem que podiam. Uma gostava de escrever na janela suada, outra gostava de ler mensagens escritas nas portas de banheiros. Uma dormia de bruços num estalar de dedos e a outra olhando para o teto e divagando sobre a vida até a insônia das circunstâncias passar. Seria uma pena se a carta de uma fosse para a outra.

Uma se importava com os outros e era muito sensitiva, a outra magoava os outros. Uma sentia tudo com intensidade, a outra era aérea demais pra isso.

Uma recebeu uma carta.

A outra errou um número.

Estranhas… Irmãs

Assim começou mais um dia, ou melhor, mais uma noite. Não que a noite tivesse certa exclusividade no evento, mas a escuridão parece não apenas dilatar as pupilas, como o medo nas pessoas.

Ninguém tem medo do escuro em si, afinal, dormimos de olhos fechados. O que tememos pode até ser monstros, mas nem todos pensam assim. Nem todo mundo teme monstros, muita gente, gente como eu, teme os humanos.

Pois monstros têm comportamentos esperados, o mais surpreendente seria se fossem como o Sully, o que não é o caso. Humanos não. Humanos têm cérebros e escolhas, maldade e bondade entrando em conflito, é uma corrente elétrica, uma indecisão e falta de precisão. Os psicólogos e outros especialistas da mente podem ter uma ideia, porém a realidade é que somos um completo mistério, uma linha sem fim e nem começo.

E graças a essa incapacidade de determinação que ela anda pela calçada estreita fazendo ainda menos barulho, visto que trocou o salto pelo tênis. Nunca se sabe quando será necessário correr, não é?

Pensou por vinte segundos se tomaria essa ou aquela rua. A vazia ou a sem iluminação alguma? A vazia, sim.

Mordendo o lábio superior, procurou a chave de casa na bolsa. Remédios, spray de pimenta, guardanapo, celular, celular velho estilo tijolo com bateria infinita, caneta, estilete, chaves. Eram três no chaveiro, perfeitas para a situação. Posicionar na mão, entre a pele do dedo médio, ela seria o Wolverine até chegar em casa.

Ouviu passos atrás de si. Deveria olhar? Correr? Gritar por ajuda? São só passos. Há um bar perto daquela rua, deve ser algum conhecido. Ser conhecido garante algo? Não… não.

Não garantiu daquela vez, por que garantiria agora? Naquele dia o conhecido fez o seu coração desacelerar e a calma tomar contar de si, inocência demais. E a culpa era dele, apenas dele, daquele cara que olhava para ela do mesmo jeito que um rótulo de sua cerveja.

 Ela usava o seu vestido favorito, mas mesmo assim culparam a bela vestimenta. Uma peça de roupa realmente deve ter mais consciência que uma pessoa, eles devem pensar assim, todos pensam. Seu pai, o policial, seu irmão, seus vizinhos… todos. Um vestido que tem o efeito de um cogumelo venenoso. Oh, mortal vestido!  Culpem o vestido, melhor, culpem quem o usa.

Inocente conhecido. Tão jovem, roupa bem passada… bom moço, de família tradicional, exemplo de vida para os mais novos.

Escutem-no.

Calem-na.

Foi sempre assim, por que razão agora, no século XXI, isso mudaria?

Ela resolveu virar-se lentamente, o coração quase voando do peito. Pela penumbra, nada viu. Atrás de si, apenas o vazio. Onde ele estava?

Olhou para a calçada do outro lado… uma pessoa. Pequena, quieta. Uma mulher.

Ela nem pensou, a outra também não, cruzaram olhares e nem precisaram falar. Permaneceram quietas, deram um tímido sorriso.

Atravessaram a rua e se encontraram no meio. Deram as mãos, mãos trêmulas, aliviadas. Eram desconhecidas, cada uma poderia ser qualquer coisa, mas, naquele momento, eram irmãs.

Obrigada, fique ao meu lado. Só quero isso, por favor, não solte a minha mão.

Na mão esquerda da outra moça, uma faca retrátil sendo fortemente comprimida por sua palma suada. Na dela, as chaves haviam afrouxado entre seus dedos.

Seriam soldadas em uma guerra? Óbvio. Só que essa guerra não era declarada. Nada oficial, tudo enraizado. 

Os Escombros Carimbados

A explicação para quem sou não deveria existir. Muito menos a exigência de definição ou a urgência para uma discussão sobre a sua discutível aprovação. Não deveria ser assim.
O fato de eu ser ou de querer é meu, é minha posse e a todo momento querem arrancá-la e classificá-la.
Seria eu algum produto aleatório em uma esteira fabril? Seríamos todos? Quem são esses com os carimbos ácidos em nossas peles, ouvidos, olhos e escolhas?
Vejo bem, eles também são carimbados. Tinta de caneta esferográfica, podem mudar quando querem e até escolherem o que são.
Nós não. Somos remontados e marcados eternamente na brasa, não fomos escolhidos pelo sistema.
Alguns, somente alguns têm marcas que podem ser escondidas por mangas compridas. Outros, muitos outros, milhares ou até bilhões, não têm mangas e o ácido já corroeu demais, instalou-se no organismo.

As minhas manchas ficam expostas ao Sol, o mesmo daqueles que nos marcam. Creio que eles não temem o grande astro. Acho que eles refletem a luz em mim.

Mas podemos nos unir, caros produtos registrados, temos a força de uma muralha. Sim, juntos, ardendo ao Sol, sofrendo (claro, como de costume) e gritando sempre que a substância ardente tentar nos calar. Nós podemos, queremos, somos e mudamos para o que sentimos no momento eterno lépido. Vamos, dê-me a mão, eu cuido da sua cicatriz e você salva a minha superfície.

Correremos, se alguém ficar para trás, voltaremos. Ninguém será deixado, acredite. Não nos meus sonhos e na nossa pequena estupenda fuga da realidade distópica. Mãos suadas e escorregadias, ombros pesados e mente desgastada. Nem parece que somos fabricações novinhas em folha. Esse é o plano deles, coisas novas com vidas curtas. Vidas que entrelaçadas virarão séculos, derrubarão os milênios de repressão.

Novamente, dê-me a mão, confie em mim. Deixe-me costurá-lo com esta agulha em forma de chave, encontre a solução conosco, abra a mente do restante e derrube os portões elétricos. Venha.

O “Não” dos Cacos da Arrogância

Direi sem pestanejar: não. Sim, isso mesmo, “não”. A pureza, a delicadeza, a dedicação e a perfeição, os movimentos calculados… tudo acabou. Virou ódio, fundiu-se com as palavras e os gestos. Quebrou-se junto com os juramentos e tatuou-se na memória naquela categoria das coisas ruins que acontecem (e lembramos de maneira masoquista nos piores momentos possíveis).

Foi como trocar um adesivo… às vezes é melhor correr o risco de rasgá-lo, puxando-o rapidamente e colando outro sem cautela em seu lugar. O meu novo álbum chama-se “incisão”.

Não foi preciso gelo em meu coração e nem chamas em minhas lágrimas, as suas palavras carregadas de arrogância deram conta do recado. Juro: não sofri e nem chorei depois disso. A expressão certa seria “renasci”.

Quebrou, estilhaçou, pisou em cima e depois tentou reunificar os pedaços com cola escolar. Mal sabe você que isto não gruda nem papel crepom direito. Tudo isso deslizará por seus dedos compridos e cairá sobre a sua palma como um caco do que a sua avareza destruiu.

Cortará tão profundamente quanto uma adaga, deixará cicatrizes do que um dia já foi belo e feliz, trará as mesmas lembranças pregadas em minha memória. Você verá, eu sentirei. A situação permanece injusta, como se fosse a única das milhares de coisas erradas que giram em torno de mim.

Enquanto aguardo essa, digamos, “vingança”, saboreio os momentos com um prazer dolorosamente culposo. Caso pergunte: não. Não. Não. Não. Não lembrarei mais de você, apenas do que a sua mente sádica rasgou, o que tratei de embrulhar como um presente especial. Guarde isto: não.

O Estopim do Manequim

A princípio a sala estava vazia. Havia espelhos por todas as paredes, distribuídos com perfeição, como se não tivessem sido instalados lá, praticamente criando um novo Universo. Pouco tempo depois que entrei, percebi a presença de uma forma humanoide no espaço. Bati o olho rapidamente e pensei “é bela”, acho que qualquer um pensaria o mesmo.

Pessoas começaram a entrar, para ser mais específica, uma verdadeira multidão de indivíduos providos de instrumentos, cadernos, câmeras e tudo quanto é possível imaginar. A forma humanoide ganhou menos espaço para visualização no espelho, a superlotação não permitia tal luxo. Os observadores deixaram de fazer o ato que faz jus ao nome e aquele ser não respondia nada, ficava calado sem revidar as ofensas disfarçadas de sugestões. Acredito que fosse um manequim, apenas um ser inanimado não responderia aquilo, não é?

A audiência foi se aproximando lentamente do manequim com os seus instrumentos, riscando-o, cortando-o, lixando-o, pintando-o, limpando-o, raspando-o, botando alguns panos em partes estratégicas. Já não era mais a mesma coisa, quem o viu desde o início não poderia reconhecê-lo depois de todas essas transformações. Eram pessoas gritando, falando, sorrindo amigavelmente (com veneno nos olhos) e dando dicas. Dicas! Dicas para um manequim? Estranho.

O que me deixou mesmo intrigada foi toda essa preocupação alheia com aquele ser. Qual a necessidade de mexer com ele? Acho que o manequim não pediu ajuda; não acho, tenho certeza disso. Mesmo que quisesse, ele não fala, ou pelo menos não podia falar.

Permaneceu imóvel na sala, mais e mais gente entrando e o barulho infernal deu-me tontura. O manequim quase despencou com tamanha agitação. Consegui entender algumas falas que talvez lhe façam compreender a situação em que nos encontrávamos.

“A cor rosa te favorece mais. Veja só como sua silhueta fica fina! O que acha? Responda!”

“Só mais algumas lixadas e nem vai parecer que essa protuberância existiu, fique tranquila! Isso, respire mais fundo, dá para disfarçar um pouco. Está ótimo, isso mesmo. Você está ficando linda, uma verdadeira campeã!”

“Vencedora! Exemplo de superação! Está parecendo muito comigo, só mais algumas semanas e estará perfeita! Parece também com a minha prima, só que ela já nasceu assim, você precisa se aperfeiçoar, querida.”

“Nossa, eu acho que já te vi antes. Ah, sim, a minha filha faz exatamente o mesmo. Espero que ela fique agradável. É questão de saúde, sabe? Saúde, isso mesmo. Ela faz alguns esportes, mas precisa se adequar, ser mais saudável. Ela é muito preguiçosa, quer dizer, parece ser, precisa mudar isso. Fomos ao médico e ele disse que estava tudo bem, só que…”

“Mentira, senhor, balela! Você acha mesmo que está bem? É para a harmonia, sutileza, delicadeza, essencial para uma menina. O médico disse que é saudável? Falácia! Se estivesse tudo bem, a moça estaria uma verdadeira escultura.”

“Você conhece a minha filha? Direi o mesmo a ela, a garota parece ficar chateada, precisa entender que é para o bem dela! Veja só, circularam as imperfeições do manequim! Ei, você, o que está achando, sentindo-se bonita?”

“Não a conheço, mas isso se aplica a todas! Veja bem, senhor, não é bem melhor assim? Todos concordam, até quem passa por essa situação, digamos… delicada. Certo?”

Vendo o pequeno espaço liberado para reflexo e reflexão, observei o manequim. Suas mãos estavam atadas com fitas métricas e sua boca tampada com uma capa de revista. Um tanto inusitado, fiquei me perguntando como ele aguentava aquilo. Eu sem dúvida não suportaria.

O ar estava pesado, pouquíssimo espaço para respirar e ainda gritavam “respire fundo, prenda, isso mesmo, perfeita!”. Fiquei tonta, as pessoas pareciam manchas e os sons eram buzinas ensurdecedoras.

O manequim caiu, despedaçou-se, o estrondo não foi escutado pelos outros, não vi reações. Teria o ser desaparecido para ninguém lamentar-se? A sua base de fato havia sido tão lixada que era instável demais para permanecer em pé.

O chão era quente, fervia, os sons cessaram. Ainda num estado misto de alucinação e realidade, tentei me situar e percebi algo que gelou os meus ossos partidos. Tentei gritar, mas não consegui, usei os braços para levantar e eles não iam para onde queria. Nada estava certo. O manequim… não era um manequim. Não era um ser inanimado, ele existia, vivia, respirava, e, por incrível que pareça, sabia tomar as suas próprias decisões por mais que duvidassem disso. Terrível! Não podia ser verdade! Lágrimas com gosto de vivência amarga inundaram meu rosto.

Ah, aquele manequim… era eu.

O Ônix do Ódio e o Rubi da Liberdade

Até agora ia tudo bem. Eu planejava esse passeio há dias e, justo no dia anterior, choveu como se fosse o fim do mundo; mas, nada, escute bem, nada iria impedir-me de realizá-lo. Primeiro, tive de me certificar de que Ele estava de bom humor. Para minha boa sorte, hoje era um daqueles mágicos dias nos quais tudo dá certo.

Fomos até o grande jardim, ou seria um parque? Bem, havia lama por toda parte e ficamos praticamente sozinhos naquela vastidão verde, enquanto alguns turistas tiravam fotos com faces decepcionadas. Acredito que sentiam nojo de tocar seus formidáveis tênis e sapatos de marca na terra; coitados, não poderiam exibir a ostentação que planejavam nas redes sociais, teriam que, de fato, aproveitar um dos locais mais belos de todo o mundo.  Isso me deixa intrigada. Veja bem: os mesmos homens que dizem que viemos do barro sentem nojo do mesmo… Enfim, não é isso o que quero discutir.

Como era manhã, o Sol jazia com uma luz tímida naquele dia de primavera e os passarinhos criavam um caos pacífico, cantando junto com a música clássica ao fundo. Deitamos na grama, pude sentir a água acumulada do dia anterior empapando minha nuca e sua frieza deixou-me calma. Parecia tudo perfeito, era como se eu estivesse num outro mundo e pudesse esquecer que amanhã acordaria na mesma cama, sob o mesmo teto e com os mesmos tortuosos deveres diários.

Próximo a uma das milhares de fontes do jardim, havia um belo canteiro com flores de todas as cores e tamanhos. Na fonte, que ficava bem em seu centro, havia duas estátuas de pedra cinzenta: um sapo e Eros que se observavam com uma mistura de temor e curiosidade.

Repentinamente, um forte vento tomou conta de todo o espaço. Neste exato momento, Ele olhava em meus olhos e sorria como nunca sorriu. Senti que me amava justo naqueles segundos… Juro.  Meus olhos encontravam-se arregalados nessa pequena fração de tempo, observando seu olhar castanho escuro. Não era possível distinguir íris e pupila, era como olhar um ônix e ver seu próprio reflexo. Eu via a mim, mas na realidade via a alma daquele que tanto amei e odiei. Foi o último olhar que dei para Ele. Grãos de pólen de alguma flor dirigiram-se até meus globos oculares e fechei-os com aflição. Creio que perdi a consciência por cerca de cinco segundos.

Como doía! O tempo de paz acabou, sabia que chegaria a um fim, mas não tão rápido; como não pude aproveitar!? As palavras cortavam minha pele como canivete e não paravam, uma após a outra, a dor, o sangue, senti que morreria. Por favor, meu amor, pare! Não grite! Não vê como suas palavras me ferem? Uma confusão de sentidos e pensamentos misturou-se em minha mente e não via mais com os olhos e degustava com a língua, nada era tudo e visão era audição.

Meus olhos não viam mais aquele belo jardim, sentiam um gosto azedo, uma mistura de limão e sal, ardiam como nunca em toda essa vida. Minha pele gritava por socorro, contraía-se pela pressão exercida em meus ouvidos, que estavam prestes a explodir com aquele barulho ácido. Por favor, pare! Pediam as pontas de meus dedos. Eu te amo, não fiz nada, sempre fui tão devota, acredite! Latejavam minhas pupilas, dilatando-se e contraindo-se.  

Ele não entendia a loucura sob a qual o meu corpo todo se encontrava. Eu não sei como descrever, mas o que sinto por ele dói. Odeio, odeio, odeio aquele ser humano e consigo concentrar esse ódio em meu coração de uma forma que parece fazê-lo querer saltar e esguichar sangue quente por todo canto. Ah, o meu amor… É uma força resultante, esse tal de amor, por mais que o ódio esteja lá fazendo seu papel, o sentimento mais puro de todos sempre vem anteriormente e ganha em quantidade, deixa seu rastro e impregna todo o ambiente.

Minhas bochechas estapeavam o que deviam ser suas mãos, meus pés abriam e fechavam para tentar uma visão menos caleidoscópica da situação. Era um caos nada pacífico, até o coração criava pernas e queria fugir.

E fugiu. Deixou meu corpo e caminhou pela lama, gritou com os ventrículos e chorou com os átrios. Respirou bem fundo e latejou verdades para aquele que apenas abaixei a cabeça e assenti. Pare, coração, por favor, não acabe com tudo que sempre planejei! Como será… amanhã?

Amanhã. Amanhã seria do mesmo jeito que ontem e anteontem e bem antes. Acordar, lavar, passar, limpar, cozinhar, organizar, construir, beijar, amar, deitar, odiar, chorar, acordar, dormir, sentar, beber, pilular, deitar, acordar, lamentar.

Pode ir. Se eu não for, que pelo menos você possa viver por mim todos esses anos de braços de ferro em meu peito. Depois de tantos empurrões… será que a chave presa despretensiosamente na fechadura caiu? Seja como for, apenas vá, e, se conseguir escapar desse delírio, se minhas orelhas pararem de girar em exaustão pelo odor ferroso da tinta vermelha em minhas têmporas, tentarei fugir com você.

O ódio, um sentimento que carrego no colo e beijo suavemente a testa, trazia a minha racionalidade naquela relação. O ordinário amor tentava persuadir-me, dizer que era exagero, abaixar a cabeça e aproveitar enquanto ainda era amada. Já o meu querido libertador abria as minhas pálpebras, ainda que por alguns segundos, e logo recebia um soco de punho pesado do invejoso sedutor.

Dificilmente aquele estado de racionalidade durava muito, era facilmente contido pelo hábito. Mas, felizmente (para mim, sim, eu!), não dessa vez.

Por alguns minutos, os cortes pararam, os gritos de meu odiado amor cessaram e eu convivi com a paz corporal. Aproveitei esse hiato e saí correndo com meus dedos atrofiados por não sei onde, pulei obstáculos com meus dentes avermelhados e encontrei uma luz tão forte que fez meu estômago contrair-se.

Era a saída. Ah, obrigada! Nunca mais parei e até agora continuo mentalizando com o meu psicológico confuso (porém livre), enquanto caminho até um sei bem onde. Não pretendo dar um nome para esse belo lugar, só sei que não há ônix violentos que ricocheteiam em minhas veias e bloqueiam o ódio ali preso. Eu inspiro… e expiro com o coração solto fundido em rubi.

Amarras Mentais

Esse não era o fim que eu tanto aguardei. Sim, eu tinha consciência de que um dia encontraria a saída daquele redemoinho mental e daquelas amarras físicas em que me encontrava.  Foi algo tão repentino, o medo me tomou por completo e a dor de cabeça trouxe náuseas e uma vontade interior de explodir para simplesmente aliviar aquele congestionamento psicológico. Felizmente, tudo passou.

Tudo começou quando decidi finalmente sair de casa, livrar-me daquele stress diário e tentar tocar a vida de um jeito diferente, quem sabe me surpreender de maneira positiva. Acho que foi o pensamento menos pessimista de todos esses anos em que vivi, devo admitir. Enfim, caro leitor, como dizia, a estrada que tomei era estreita, eu não sabia para onde ia, o nervosismo e a rebeldia gritando dentro de mim eram fortes demais para que um mínimo de juízo mostrasse luz. Assim que acionei o acelerador, deixei por conta de meu próprio instinto e liberei a mente para viajar, enquanto o vento deixava as minhas madeixas bagunçadas e engolia alguns tufos de cabelo como a minha gata Bastet.

Logo que escureceu, percebi que entrara numa pequena rua que se atrofiava estranhamente, porém, como bom ser curioso, continuei o percurso até me dar conta de que era uma rua sem fim. O lugar tinha apenas um poste com a iluminação falha que piscava em intervalos de cinco segundos (infelizmente, tive tempo para observar esse tipo de peculiaridade). Quando analisei o local, vi um objeto estranho e tentei correr até a moto para pegar uma lanterna. Tropecei em uma pedra, senti um líquido escorrer entre meus dedos, que com certeza não era suco de melancia, tomei impulso para levantar-me e dei-me conta de que algo prendia a minha perna esquerda. Mais precisamente, algo não apenas a prendia, como também a arranhava com dentículos ao sinal do menor movimento.

Passei horas montando um quebra-cabeça de como retirar a perna sem perder um pedaço desta, gritei por socorro, tentei ligar para alguém debilmente com o meu celular que caíra próximo a minha perna livre (uma ginástica da qual não pretendo lembrar-me tão cedo). Sem sinal, ninguém escutava. A posição não era nada agradável: de bruços no asfalto, com alguns animais, que creio serem besouros subindo em meus braços, fazendo cócegas e provocando calafrios que me faziam suar frio. A ausência de luz não permitia uma boa identificação dos meus únicos companheiros, o que deixava a dúvida sobre a sua verdadeira identidade. Onde estava? O arrependimento, a culpa e todos os pecados cometidos nesta vida e até em outras serpenteavam pela minha mente, como o anelídeo gélido que entrara na manga de minha blusa imunda.

Desisti. Não vou mentir, não é o tipo de ato sobre o qual se conta aos colegas, que nem sabem escrever o seu nome corretamente, visando parabenizarem-lhe.  O dia finalmente chegou e eu pude conscientizar-me da situação: prendera o pé num ralo um tanto pitoresco, minha calça rasgara com as diversas tentativas de soltura e eu pude sentir que a região inchou como uma bexiga de festa de criança.

Provas, família, amigos, inimigos, antigos relacionamentos, trabalhos, futuro promissor: nada mais importava, eu só queria garantir que na próxima manhã não acordaria com o gosto de asfalto e uréia na boca. Continuei empurrando, girando, torcendo, cortando a pele e reprimindo o grito, mordendo os lábios até ficarem em carne viva; até que chegou um ponto em que a perna toda entrou no buraco… E seria o fim. Ou não.

Peguei a chave em meu bolso para uma última tentativa: quebrar a estrutura rochosa. Não conseguia enxergar devidamente, apenas um olhar de soslaio, para não acertar a mim mesma. Depois de meia hora, senti que havia uma espécie de protuberância retangular em torno do orifício. Passei a chave em sua risca e vi o chão descer um pouco, puxei a perna com a excitação de uma possível libertação e me vi caindo até as profundezas.

Não eram exatamente profundezas, apenas suficientes para que visse uma fresta da luz que irradiava de fora enquanto gritava com a dor do sufoco daquele ambiente úmido e apertado que fazia a minha caixa torácica querer partir-se em pequenos pedregulhos. Naquele local, quase sem luz, sem vida e sem esperança, lembrei-me de todos os problemas e quase quis abraçá-los, beijá-los um a um para que voltassem junto com a minha antiga vida. Sim, já cheguei a esse ponto de aceitação… Foi uma verdadeira tortura, tudo, uma mistura de todas as perdas, injustiças e amarguras de uma vida dentro daquela depressão em que meu pequeno corpo se instalava por algumas horas (ou talvez a vida toda).

Tentei girar um pouco e vi um brilho metálico na parede. Em uma letra de forma quase ilegível, identifiquei “necrotério da cidade”. A confusão tomou conta de minha mente, senti que ia desmaiar, pensei, tentei entender a situação na qual me encontrava.

Um antigo necrotério, uma entrada secreta, um lugar abandonado aonde nunca iriam me achar. No meio do nada, com tudo na mente, a vontade de lutar já tinha deixado meus pensamentos desde que abandonei a casa de meus pais. Peguei a chave, vi que suas saliências estavam gastas e formavam uma pequena ponta afiada. Olhei para as construções velhas e cinzas lá no mundo superior e encaminhei-me para o inferior com um movimento perpendicular à traqueia.